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11/03/2012

COMÉRCIO EXTERNO GERA MEDO DE DESACELERAÇÃO EXAGERADA NA CHINA

Depois de obter superávits enormes por mais de dez anos, que geraram crescimento em casa e reclamações no exterior de práticas de comércio injustas, a balança comercial chinesa afundou no vermelho mês passado. A pergunta que isso deixa no ar é se a economia da China está ou não perdendo fôlego mais rápido do que se esperava.
O déficit de US$ 31,5 bilhões em fevereiro, divulgado no fim de semana, foi bem maior que muitos analistas previam e soma-se a uma série de outros dados econômicos desanimadores, inclusive o fraco crescimento nas vendas de automóveis, na produção industrial e nas vendas do varejo, e a continuação da queda acentuada nas vendas de imóveis. A única boa notícia econômica é que a inflação abrandou mais rápido do que o esperado.
Os resultados em geral levaram analistas a prever que a China afrouxaria sua política monetária nos próximos meses para impulsionar o crescimento, mas poucos esperam um pacote sequer próximo à dimensão do estímulo ao consumo e ao crédito de 2009 e 2010, que foi uma resposta à crise financeira mundial.
De fato, no início da semana passada, o primeiro-ministro Wen Jiabao reduziu a meta de crescimento do país dos 8% usados desde 2005 para 7,5%. Embora o número seja considerado simbólico — a China rotineiramente cresce mais que as previsões do governo —, o crescimento do produto interno bruto pode ficar abaixo dessa meta no primeiro trimestre de 2012. A China não teve nenhum trimestre em que o PIB cresceu menos que a meta do governo desde o começo de 2009.
"O risco ao crescimento tomou o lugar da inflação como o maior risco macroeconômico na China", disse Qu Hongbin, economista do HSBC para a Ásia. Qu prevê que o PIB cresça cerca de 8% no primeiro trimestre; o J.P. Morgan põe o número em 7,2%. Em 2011, a China cresceu 9,2%.
No lado comercial, o déficit de US$ 31,5 bilhões é o maior déficit mensal desde pelo menos 2000, quando a economia chinesa era muito menor, e é provavelmente o maior já registrado no país. A China registrou um superávit de US$ 27,3 bilhões em janeiro, de acordo com dados divulgados pela Administração Geral da Alfândega. Um crescimento baixo das exportações da China, que é a fábrica do mundo e sua segunda maior economia, depois dos Estados Unidos, indica que a demanda mundial permanece fraca.
Em janeiro e fevereiro, as exportações cresceram 6,9%, enquanto as importações subiram 7,7%, bem abaixo dos crescimentos de dois dígitos que a China geralmente apresenta. Nesse período de dois meses, as exportações para a União Europeia, o maior parceiro comercial da China, caíram 1,1% em relação a um ano antes. Embora as exportações para os EUA tenham crescido 14,9% durante os dois meses, comparado com o ano anterior, ainda assim foi um crescimento menor que os 17,4% registrados no quarto trimestre de 2011, também comparado com o ano anterior.
A China já não depende tanto do comércio exterior para crescer como dependia durante a crise financeira de 2008 e 2009, quando a redução nas exportações custou pelo menos 20 milhões de empregos, segundo pesquisas chinesas. Mesmo assim, os números magros da balança comercial provavelmente vão reforçar a resolução dos líderes chineses de desacelerar fortemente a valorização de 4,7% que o yuan teve frente ao dólar em 2011.
Uma redução tende a repercutir nas eleições presidenciais de 2012 nos EUA, especialmente porque a China continua a desfrutar de grandes superávits no seu comércio com os EUA, incluindo um superávit de US$ 26,2 bilhões nos dois primeiros meses deste ano, maiores que os US$ 21,5 bilhões registrados no mesmo período do ano passado.
Até agora em 2012, o yuan permaneceu inalterado em relação ao dólar. "A contínua valorização unilateral do yuan provavelmente chegou ao fim", disse Qu.
As medidas de atividade econômica doméstica também se mostraram fracas. As vendas de automóveis na China caíram 6% nos dois primeiros dois meses deste ano em relação a um ano antes. Essa lenta largada tornará difícil para o setor automotivo chinês alcançar a sua meta de 8% a 10% de crescimento nas vendas em 2012.
As montadoras estrangeiras já indicaram que a China, outrora um dos mercados quentes para automóveis, pode ter um crescimento de um dígito pelo segundo ano seguido. Esse seria o menor crescimento em dois períodos consecutivos desde que o mercado decolou, no final da década de 90.
Num comunicado divulgado sexta-feira, a Associação de Fabricantes de Automóveis da China informou que as vendas de veículos caíram 6%, para 2,95 milhões de unidades, nos primeiros dois meses de 2012, comparado com o mesmo período do ano passado. As vendas de carros de passeio no mesmo período caíram 4,4%, para 2,37 milhões de veículos.
Ainda na sexta-feira, as agências do governo chinês anunciaram que o valor agregado da produção industrial do país nos primeiros dois meses de 2012 foi 11,4% mais alto que um ano antes, um redução em relação aos 12,8% de dezembro e aos 12,4% que os economistas haviam previsto. As vendas do varejo nos dois primeiros meses do ano cresceram 14,7%, contra um crescimento de 18,1% em dezembro.
Um crescimento menor também ajuda a manter a inflação sob controle. Os preços ao consumidor em fevereiro subiram 3,2% em relação a um ano antes, menos que os 4,5% de crescimento em janeiro e que os 3,4% previstos pelos economistas.
Para estabilizar o crescimento, o banco central da China deve cortar o volume de reservas que os bancos são obrigados a manter em seus cofres, algo que ele já fez duas vezes desde o final do ano passado. O objetivo disso é dar um empurrão no hoje estagnado ritmo do crédito.
Sexta-feira, o Banco do Povo da China disse que os novos financiamentos no período de dois meses ficaram em 1,45 trilhões de yuans (US$ 230 bilhões), contra 1,58 trilhões de yuans um ano antes.
Mas a China está relutante em cortar as taxas de juros, o que pode ter um grande efeito na economia. Isso se deve em parte aos receios das autoridades de que juros mais baixos poderiam impulsionar a venda de apartamentos de luxo, e voltar a inflar a bolha imobiliária. E também porque as autoridades querem evitar um êxodo de capital do sistema bancário, o que pode acontecer caso os depositantes se revoltem contra ter suas poupanças remuneradas por juros abaixo da inflação.
Embora poucos economistas esperem que a China apresente um amplo plano de estímulo, há outras medidas que podem ser tomadas para impulsionar os gastos com consumo, incluindo reduzir impostos sobre artigos de luxo para encorajar os consumidores a comprar esses produtos na China, em vez de no estrangeiro, e repetir programas de subsídios a automóveis ou gastos com utensílios domésticos. O déficit fiscal total, cuja meta o ministro da Fazenda disse na semana passada que será de 1,5% do PIB, também pode ser aumentado.

Fonte: WSJ Americas.