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20/06/2012

‘O MERCOSUL ESTÁ SENDO ABANDONADO PELA AMÉRICA LATINA’, AFIRMA ESPECIALISTA DA FGV

“Vim aqui para partilhar minha angústia e preocupação com vocês”, declarou a coordenadora do Centro do Comércio Global e Investimento da Fundação Getúlio Vargas, Vera Helena Thorstensen, na manhã desta terça-feira (19/06), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ao participar da reunião mensal do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da entidade.
O desabafo da especialista diz respeito à posição do Brasil ante a manutenção e criação de novos acordos de livre comércio – apreensão compartilhada pelo presidente do Coscex, o embaixador Rubens Barbosa. De acordo com ele, o regionalismo ganhou força dentro da globalização. “Todas as regiões estão negociando acordos de livre comércio, com exceção da América do Sul”, alertou.
Barbosa observou que está ocorrendo, na Ásia, um movimento muito mais dinâmico quanto a essa questão, e que até países como China e Japão estão abrindo seus mercados, “algo impensável há pouco tempo atrás’. E ressaltou a importância de o setor privado discutir o tema, uma vez que há ‘uma paralisia total do ponto de vista do governo brasileiro’.
Segundo Vera Helena, alguns países – encabeçados especialmente por Estados Unidos e a União Europeia – estão avançando significativamente em relação às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e criando novas normas, principalmente na área de serviço, propriedade intelectual, salvaguarda e regra de origem. Isso, em sua avaliação, apesar de gerar conflito de regras, proporciona o fechamento de diversos acordos, à margem da OMC.
“O centro do mundo hoje é a Ásia. Todos querem ser parceiros do Asean+6 [organização regional de Estados do sudeste asiático constituída com o objetivo de acelerar o crescimento econômico]. Se [o acordo com Estados Unidos] for para frente, será uma máquina de produção industrial que não terá ninguém para deter”, explicou a especialista.
O embaixador Barbosa acrescentou que a Parceria Trans-Pacífico (TPP) – proposta de livre comércio que visa liberalizar as economias da região Ásia-Pacífico – será a maneira pela qual os países asiáticos entrarão no continente Sul-americano, já que o Chile, México, Peru e Colômbia farão parte do bloco. “O Mercosul está sendo abandonado pela América do Sul”, complementou Vera Helena.


Desacordos


Também presente à reunião, o diretor do Departamento de Negociações Internacionais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Daniel Marteleto Godinho, afirmou que a média de importações brasileiras amparadas por acordos comerciais (14,5%) não fica muito abaixo da União Europeia (17%) e Estados Unidos (23%), por exemplo.
Godinho ressaltou que a ordem da presidente Dilma Rousseff é avançar e concluir o acordo Mercosul-União Europeia, mas o Ministério tem enfrentado dificuldades no diálogo com a indústria. “Todo dia recebo representantes do setor privado dizendo que esse acordo é suicídio. A reação setorial contra é muito forte”, relatou o diretor. “Preciso compartilhar essa dificuldade [de um consenso], porque desejamos avançar, mas se o MIDC não ouvir a indústria, cria-se outro problema.”
Para o presidente do Coscex, a oposição do setor privado ao acordo se deve ao Custo Brasil: “Tão logo o governo comece a tomar medidas pontuais quanto à desoneração, esse posicionamento irá mudar” rebateu Barbosa, argumentando que o ideal seria ter regras permanentes, que ajudassem a todos, como por exemplo, redução da carga tributária, custo da energia e infraestrutura. “Nossa posição tem que ser entendida dentro desse contexto. Se mudar o Custo Brasil, mudamos de posição”, concluiu.

Fonte: FIESP.