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13/07/2012

ARGENTINA SE PROTEGE DE PRODUTOS BRASILEIROS, MAS ALIVIA OS CHINESES

BRASÍLIA - Como se não bastassem as barreiras protecionistas, os argentinos dão preferência aos bens exportados pela China e tornam mais lento do que já é o desembaraço de mercadorias brasileiras nas alfândegas. Dados coletados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) com institutos oficiais argentinos, aos quais O GLOBO teve acesso, mostram taxas de crescimento impressionantes das compras de produtos chineses.
Números atualizados até o ano passado revelam que as compras de calçados chineses subiram 98,6%. Justamente o setor de calçados, objeto de um acordo firmado há dois anos, em que os exportadores brasileiros se comprometeram a restringir os embarques anuais para a Argentina a 12 milhões de pares, para ajudar as empresas do vizinho.
Técnicos do governo brasileiro explicaram que a questão não é o valor adquirido, mas as taxas de crescimento de produtos argentinos, o que pode significar uma tendência macabra para a indústria nacional. As compras de sapatos do Brasil, por exemplo, subiram 16%, levando em conta uma fraca base de comparação, em 2010.
No mesmo período, as importações de roupas da China subiram 82,8%; de móveis, 53,6%; automóveis, 91,7%; siderúrgicos, 87,7%; equipamentos e aparelhos eletroeletrônicos, 62%. As compras de tecidos de malha brasileiros pelos argentinos caíram 15,5%, e as de roupas, 1,7%.
A lista é interminável e levou o governo brasileiro a comunicar aos argentinos que não vai mais homologar qualquer tipo de novo acordo de restrição voluntária de exportações firmado no setor privado. Nos bastidores, estuda-se alguma retaliação, como uma ação na Organização Mundial do Comércio (OMC), pelo longo tempo de liberação das mercadorias brasileiras.


Venda de tratores brasileiros cai 43,6%


O caso dos calçados é emblemático. A OMC determina que o prazo máximo para o desembaraço dos produtos importados é de 60 dias; os argentinos estão levando, em média, 225 dias para a liberação. Há 1,4 milhão de pares parados nas aduanas argentinas, o que é péssimo para um setor que trabalha com moda.
- Para vendermos esses sapatos, só se voltarmos no tempo, ou se a moda for retrô - disse o presidente da Abicalçados, Milton Cardoso. - Nossas exportações para a Argentina estão em queda livre.
Dados do Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) mostram que, de janeiro a maio, houve uma redução de 59% em volume e 55% no faturamento dos exportadores calçadistas. Isso intensificou o êxodo de empresas brasileiras que atuavam no país vizinho.
Levando em conta o primeiro semestre deste ano, as vendas de tratores brasileiros à Argentina caíram 43,6%. Calçados e tecidos sequer aparecem entre os principais itens exportados na pauta brasileira para aquele mercado. Os embarques de automóveis diminuíram mais de 30%.
Em uma avaliação reservada, os técnicos reconhecem a grande dependência que a Argentina tem da China, sua principal compradora de produtos agropecuários, mas revelaram que a paciência está no limite. A única saída para o problema, disse uma fonte, seria um acordo político, no mais alto nível, entre as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner.
- Estão barrando somente os nossos produtos. Os dos chineses, não - disse uma importante fonte do governo brasileiro.
Nos bastidores, o que se diz é que, ao tentar segurar as importações da China, tal como faz com o Brasil, a Argentina foi avisada por Pequim de que poderia ter suspensas suas exportações de óleo de soja para o país asiático. Daí o maior cuidado no desembaraço de mercadorias chinesas.
Além disso, Cristina tem pressionado o Brasil e os demais sócios do Mercosul a firmar um acordo de livre comércio com os chineses. Como o governo brasileiro rechaça essa possibilidade, a presidente argentina vem tocando seu projeto sozinha.
País pode adotar medidas de reciprocidade
A indústria brasileira, que várias vezes abriu mão de rentabilidade em favor da Argentina, quer que o governo tome medidas efetivas e responda à altura ao país asiático. Usar a reciprocidade, como tem sido feito nos últimos anos, seria um caminho.
Domingos Mosca, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), disse que, em 2005, a participação do vestuário brasileiro nas importações argentinas era de 22,67%, e a dos chineses, de 6,1%. Hoje, o percentual de confecções da China saltou para 58,8%, e o do Brasil caiu para 3,68%.
- Nosso governo continua praticando a paciência estratégica, levando em conta a situação difícil da economia argentina. Esperamos que sejam tomadas medidas de reciprocidade - disse Mosca.
Tanguy Baghdadi, coordenador do Clio Internacional, grupo de pós-graduação em política externa e negócios, ressaltou que a China já está tomando o lugar do Brasil na América Latina. Há poucos anos, o Brasil ficava apenas atrás dos EUA, agora os chineses estão em segundo lugar. (Eliane Oliveira)

Fonte: O Globo.