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27/08/2012

ECONOMIA BRASILEIRA VIVE CÂMBIO CONTROLADO EM REGIME FLUTUANTE

Lombardi, do Standard: "Investidor claramente ficou mais arisco quando o governo começou a pesar a mão no câmbio, porque ficou a sensação de o que mais deve vir”.
As intervenções do governo no câmbio deixaram o investidor mais arisco e estabeleceram um câmbio controlado num regime de taxa flutuante, avalia o economista e estrategista para a América Latina do Standard Chartered Bank, Italo Lombardi.
Ele afirma, contudo, que o sentimento com relação ao Brasil melhorou nos últimos meses e lembra os números fortes de Investimento Estrangeiro Direto (IED), que têm surpreendido até mesmo o Banco Central (BC). Segundo ele, esses ingressos favorecem a queda do dólar, mas esse impacto é contrabalançado pela expectativa de uma atuação iminente do governo no câmbio.


Veja abaixo os principais trechos da entrevista:


Valor: Qual a visão atual dos investidores estrangeiros em relação às intervenções do governo no câmbio?
Italo Lombardi: O investidor claramente ficou mais arisco quando o governo começou a pesar a mão no câmbio, porque ficou a sensação de "o que mais deve vir". Essa ideia ainda está presente. Essas intervenções do governo deixaram o câmbio controlado num regime flutuante. Isso é ruim, gera uma expectativa negativa. Mas o que dá para perceber é o que sentimento melhorou de uns meses para cá. Prova disso são os fluxos via IED (Investimento Estrangeiro Direto), que seguem fortes e têm surpreendido até mesmo o Banco Central.
Valor: Pode-se esperar alguma mudança na política cambial caso a inflação preocupe mais no próximo ano?
Lombardi: Acho que o governo vai manter a condução do câmbio do jeito que está. Não vai permitir que o dólar caia abaixo de R$ 2 para não afetar a indústria, mas também não quer a moeda acima de R$ 2,10, justamente por conta da inflação. Talvez no ano que vem possa haver uma pressão maior por uma valorização do real por conta dos preços mais altos, mas acho que o governo utilizaria primeiro não o câmbio, mas sim medidas macroprudenciais, talvez na ponta do crédito, para conter esse movimento. Em último caso, subiria a Selic. As autoridades vão fazer de tudo para não mexer no juro, já que uma das metas claras é colocar o juro em patamares mais baixos.
Valor: Não devemos esperar alta da Selic no ano que vem então?
Lombardi: Acho pouco provável e menos ainda eles devolverem todos os cortes feitos até então. A curva de juros mostra um aumento de 150 pontos-base, mas, caso o governo lance mão de medidas macroprudenciais, vai ficar ainda mais claro para o mercado que o intuito não é subir a Selic e sim fazer a taxa cair.
Valor: O BC dá mais peso hoje ao crescimento do que à inflação?
Lombardi: Esse ciclo de cortes representou uma mudança de regime. O foco agora é crescer com juros menores. Fizemos um estudo sobre isso e os resultados mostraram que, se o BC tivesse mantido os parâmetros até então vigentes no regime de metas, teria continuado a subir a Selic em pelo menos mais 0,75 ponto percentual desde agosto do ano passado. Depois, interromperia as altas e cortaria a Selic talvez em março, mas de forma bem menos intensa do que o visto desde então. Econometricamente falando, o peso que ele dá ao crescimento na equação do regime de metas aumentou, enquanto o dado à inflação diminuiu".
Valor: Qual o risco implícito nessa estratégia?
Lombardi: O aumento da inflação, que, para mim, é gerado pelo grande problema do Brasil, que é o PIB potencial baixo. As estimativas são de que esse PIB ficaria entre 3% e 4%, mas o viés é para baixo. Ano que vem vamos crescer talvez 4,5%, ou seja, teríamos um crescimento junto com aumento de inflação. O BC está fazendo um experimento desse novo modelo. Resta saber se dará certo.
Valor: Os sinais recentes de recuperação da economia brasileira são consistentes?
Lombardi: Ainda é cedo para dizer. Os indicadores antecedentes melhoraram, já começamos a virar, mas é preciso ver se é um "voo de galinha". O fato é que alguns estímulos, como a redução do IPI para carros, principalmente, tiveram um impacto relevante no mercado e podem ter gerado uma antecipação no consumo. Mas o que dá para dizer é que o segundo semestre será de fato melhor que o primeiro e que no próximo ano a economia vai ter um desempenho bem melhor que o deste.

Fonte: Valor Econômico.